quarta-feira, 23 de maio de 2007

Esses botecos que nós adoramos




Reproduzo aqui um texto muito legal sobre bares, ou melhor
botecos, que embora não tenham nenhuma sofisticação são preferidos para se tomar
uma cerveja e bater um papo cabeça com os amigos. Difícil
para frequentadores de botecos não se identificarem com muita coisa dita
nele. O texto é de autoria de
Antonio
Prata
.



Bar ruim é lindo, bicho





Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio
ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos
julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma
coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar
ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom,
que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de
história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do
garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para
falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais uma pra gente”, eu digo, com os
cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil. Nós, meio
intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a
bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit
gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os
pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando
convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau
do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora
do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito
bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem
que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se
tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.




Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo
bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos
contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e
decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar
ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos
poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio
intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que
uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e
universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no
bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de
esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a
gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio
intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns
velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de
esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso,
íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar
na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem
subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente
detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não,
a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a
Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.



Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos:
os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a
nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar
samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e
aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de
esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem
cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão,
trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede
e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia
isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão
brasileira, tão raiz.



Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil!
Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito
que agente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre
alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a
difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio
intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem
frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que
mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de
esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e
preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).



-- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que
tem?





Blog do autor: http://blogdoantonioprata.blogspot.com/



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