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terça-feira, 25 de março de 2008

Tese do Coelho - Trabalho de Conclusão


Num dia lindo e ensolarado o coelho saiu de sua toca com o notebook e pôs-se a trabalhar, bem concentrado. Pouco depois passou por ali a raposa e viu aquele suculento coelhinho, tão distraído, que chegou a salivar.

No entanto, ela ficou intrigada com a atividade do coelho e aproximou-se, curiosa:

R: - Coelhinho, o que você está fazendo ai tão concentrado?
C: - Estou redigindo a minha tese de doutorado, disse o coelho sem tirar os olhos do trabalho.
R: - Humm .. . e qual é o tema da sua tese?
C: - Ah, é uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais de animais como as raposas.

A raposa fica indignada:

R: - Ora! Isso é ridículo! Nos é que somos os predadores dos coelhos!
C: - Absolutamente! Venha comigo à minha toca que eu mostro a minha prova experimental.

O coelho e a raposa entram na toca. Poucos instantes depois ouve-se alguns ruídos indecifráveis, alguns poucos grunhidos e depois silêncio. Em seguida o coelho volta, sozinho, e mais uma vez retoma os trabalhos da sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Meia hora depois passa um lobo. Ao ver o apetitoso coelhinho tão distraído agradece mentalmente a cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido. No entanto, o lobo também acha muito curioso um coelho trabalhando naquela concentração toda. O lobo então resolve saber do que se trata aquilo tudo, antes de devorar o coelhinho:

L: - Olá jovem coelhinho. O que o faz trabalhar tão arduamente?
C: - Minha tese de doutorado, seu lobo. É uma teoria que venho desenvolvendo há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os grandes predadores naturais de vários animais carnívoros, inclusive dos lobos.

O lobo não se contém e farfalha de risos com a petulância do coelho.

L: - Ah, ah, ah, ah!! Coelhinho! Apetitoso coelhinho! Isto é um despropósito. Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa...
C: - Desculpe-me, mas se você quiser eu posso apresentar a minha prova experimental. Você gostaria de acompanhar-me à minha toca?

O lobo não consegue acreditar na sua boa sorte. Ambos desaparecem toca adentro. Alguns instantes depois ouve-se uivos desesperados, ruídos de mastigação e... silêncio. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, impassível, e volta ao trabalho de redação da sua tese, como se nada tivesse acontecido...

Dentro da toca do coelho vê-se uma enorme pilha de ossos ensangüentados e peles de diversas ex-raposas e, ao lado desta, outra pilha ainda maior de ossos e restos mortais daquilo que um dia foram lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme leão, satisfeito, bem alimentado e sonolento, a palitar os dentes.

MORAL DA HISTÓRIA:
Não importa quão absurdo é o tema de sua tese. Não importa se você não tem o mínimo fundamento científico. Não importa se os seus experimentos nunca cheguem a provar sua teoria.
Não importa nem mesmo se suas idéias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos ... o que importa é QUEM É O SEU ORIENTADOR...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Lembrando Leminski- Campo de Sucatas

Saudade do futuro que não houve

Aquele que ia ser nobre e pobre

Como é que tudo aquilo pôde

Virar esse presente podre

E esse desespero em lata?


Trecho do livro Ex-estranho (1996) de Paulo Leminski. Neste livro tem um pequeno texto introdutório:

"Este livro ... expressa, na maior parte de seus poemas, uma vivência de despaisamento, o desconforto do not-belonging, o mal-estar do fora-de-foco, os mais modernos dos sentimentos".

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Texto sobre as Mulheres Que circula na Internet não é de Rita Lee


Mais um daqueles textos legais que circulam na Internet e que atribuem a autoria a alguém famoso para teoricamente valorizar ainda mais o que está escrito.

O artigo referido é de autoria da deputada petista Heloneida Studart (foto) e já havia sido publicado em 2001 no Jornal do Brasil. Recebi-o apenas recentemente. Na versão que recebi estava atribuida erronemanete a autoria à cantora e compositora Rita Lee.

O texto possui alguns pontos polêmicos como atribuir à genitália do homem a razão de sua tendência à guerras, violência. É discutível também a posição da autora quanto às cirurgias plásticas. A meu ver é um recurso proporcionado pela ciência em favor da estética e da beleza.
Faz quem quer. Quem se sente bem do jeito em que está não precisa fazer.
De qualquer forma é um texto que nos faz refletir sobre algumas questões importantes quanto ao papel da mulher na sociedade.
Eis o texto na íntegra:


O PODER DESARMADO


Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinha da
vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas
uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os
dois irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que
o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse
se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais
respiraram, mas Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e
acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como nem com quem.
Eu tinha 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro
alto do quintal de sua casa, para se encontrar com o namorado. Agarrada
pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O
laudo do médico registrou “vestígios himenais dilacerados” e os pais
internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor para “se esquecer do
mundo”. Esqueceu, morrendo tuberculosa.

Tais episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram
perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das
mulheres. Antes, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular,
moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos
torturados por seguidas cirurgias plásticas.
Transformaram os seios em alegorias para entrar na moda da peitaria
robusta das norte-americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se
tornarem rebolativas e sensuais. Substituíram os narizes, desviaram
costelas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens. E com isso, Barbies de fancaria,
provocaram em muitas outras mulheres ­ as baixinhas, as gordas, as de óculos
­ um sentimento de perda de auto-estima.

Isso exatamente no momento em que a maioria dos estudantes
universitários (56%) é composta de moças. Em que mulheres se afirmam na
magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E no
momento em que pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é
preciso feminizar o mundo para torná-lo mais distante da barbárie
mercantilista e mais próximo do humanismo.
Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque
são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico,
tão bem representado por pistolas, revólveres, punhais. Ninguém diz, de uma
mulher, que ela é espada. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de
plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade. As
mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na
menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, dos exércitos regulares ou das
gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos.

É preciso voltar os olhos para a população feminina como grande
articuladora da paz. E para começar, queremos, neste mês de março, pregar o
respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque
carregam lata d`água e trouxa de roupa. Respeito aos seus seios que perderam
a firmeza porque amamentaram crianças, ao seu dorso que engrossou, porque
ela carrega o país nas costas. São mulheres que imporão um adeus às armas,
quando forem ouvidas e valorizadas. E puderem fazer prevalecer a ternura de
suas mentes e corações.

Heloneida Studart é escritora, ensaísta, teatróloga e jornalista. Foi deputada estaduaPremiada como uma das mulheres que mais lutaram pela justiça social no Brasil, Heloneida foi uma das indicadas em 2005 ao Prêmio Nobel da Paz. Fundadora do movimento feminista no Brasil, tem criado leis que beneficiam as mulheres, como a Lei 2648 que garantiu o exame de DNA para mães de baixa renda.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O Haver - Poesia de Vinícius de Moraes





Aqui está um texto muito legal de Vinícius de Moraes, que eu considero um dos maiores gênios da literatura que já pisaram neste planeta.
O texto que já estava semi-esquecido em minha memória cada vez mais fraca e eu recebi por e-mail outro dia de um amigo.
Depois achei esse vídeo no Youtube e não resisti em publicá-lo aqui.
O violão que é ouvido no fundo além e alguns vocalises são executados por Edu Lobo. fantástico. Profundo. Genial.
Nesse mundo repleto de pressa e frivolidades permanentes, vale a pena parar,ler, escutar e refletir sobre este poema.

O Haver - Vinicius de Moraes
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.
Resta esse antigo respeito pela noite
esse falar baixo
essa mão que tateia antes de ter
esse medo de ferir tocando
essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade
essa economia de gestos
essa inércia cada vez maior diante do infinito
essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons
esse sentimento da matéria em repouso
essa angústia da simultaneidade do tempo
essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida
de uma só morte
um só Vinícius.
Resta esse coração queimando
como um círio numa catedral em ruínas
essa tristeza diante do cotidiano
ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo
essa imensa piedade de sua inútil poesia
de sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
de pequenos absurdos
essa tola capacidade de rir à toa
esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade,
essa vagueza de quem sabe que tudo já foi,
como será e virá a ser.
E ao mesmo tempo esse desejo de servir
essa contemporaneidade com o amanhã
dos que não tem ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar,
de transfigurar a realidade
dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
e essa visão ampla dos acontecimentos
e essa impressionante e desnecessária presciência
e essa memória anterior de mundos inexistentes
e esse heroísmo estático
e essa pequenina luz indecifrável
a que às vezes os poetas tomam por esperança.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta
quem sabe inexistente
e essa coragem indizível diante do grande medo
e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer
dentro da treva.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade, sem história.
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada,
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.

sábado, 30 de junho de 2007

Bakunin, os interesses do povo e o discurso de Roriz



Encontrei por acaso esta frase do anarquista russo Mikhail Bakunin, que remete a alguma reflexão sobre nosso momento político, onde aqueles que deveriam representar os interesses populares usam o poder que lhes foi outorgado pelo voto para satisfazerem-se a si próprios:


"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."

Bakunin atribui a própria essência da natureza humana este egoísmo que sufoca gradualmente qualquer idealismo a medida que vai se habituando ao exercício do poder.

Num outro artigo, intitulado Sufrágio Universal onde o anarquista russo reflete sobre o poder do voto outorgado ao povo e que também termina por ser distorcido inevitavelmente ele afirma:


"Os homens acreditavam que o estabelecimento do sufrágio universal fosse a garantia
de liberdade dos povos...

... Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim
asseguram as obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados.
Eles estavam firmemente convencidos quando prometeram ao povo a
liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por essa convicção, eles
puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos
estabelecidos.

Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do
poder, os radicais perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados
e corruptos. Mas tudo parecia tão natural e tão simples: uma vez que os
poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de uma eleição
popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não
produziriam a liberdade e o bem estar entre a população?

Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo
e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a
verdadeira vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas
coisas: a maior prosperidade possível combinada com a maior liberdade de
movimento e de ação. Isto significa a melhor organização dos interesses
econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização política
ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da
liberdade. Estes são os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes,
sejam legisladores ou executores das leis, são diametricamente opostos por
estarem numa posição excepcional.

Por mais democráticos que sejam seus sentimentos e suas intenções, atingida
uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma forma que um
professor vê seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De
um lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela
posição de superioridade que decorre da superioridade do professor, exercite
ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de
dominação.


Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade é
dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam,
enquanto estes não têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que
dominam. Esta é a eterna história do saber, desde que o poder surgiu no
mundo. Isto é, o que também explica como e porque os democratas mais
radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais
cautelosos assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente
consideradas atos de traição, mas isto é um erro. A causa principal é apenas a
mudança de posição e, portanto, de perspectiva."


Apesar desta lúcida constatação de Bakunin, ainda considero o regime democrático a melhor solução para os anseios do povo. O que falta é o refinamento deste sistema de modo que os mecanismos que o sustentem sejam de fato a garantia de que o desejo da maioria esteja eficientemente representado.
Chegamos ao ponto de reconhecer na lei algo que é aplicado para a maioria, mas que em situações especiais terá sua aplicação amenizada na medida do poder financeiro ou político que o indivíduo exerça.
Reverter este quadro é um processo lento que deve empreender esforços de toda a sociedade a começar pela família e a retomada de sua importância na preparação do indivíduo para convívio na coletividade. A formação escolar deverá prover muito mais do que conhecimento, mas educação política, ética e sobretudo espiritual, remetendo a valores que trascendam a próprio vida do homem.
Talvez assim um dia não veremos mais cenas teatrais como a que protagonizou Roriz esta semana com seus apelos divinos e lágrimas de crocodilo.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Esses botecos que nós adoramos




Reproduzo aqui um texto muito legal sobre bares, ou melhor
botecos, que embora não tenham nenhuma sofisticação são preferidos para se tomar
uma cerveja e bater um papo cabeça com os amigos. Difícil
para frequentadores de botecos não se identificarem com muita coisa dita
nele. O texto é de autoria de
Antonio
Prata
.



Bar ruim é lindo, bicho





Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio
ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos
julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma
coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar
ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom,
que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de
história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do
garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para
falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais uma pra gente”, eu digo, com os
cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil. Nós, meio
intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a
bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit
gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os
pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando
convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau
do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora
do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito
bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem
que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se
tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.




Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo
bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos
contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e
decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar
ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos
poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio
intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que
uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e
universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no
bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de
esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a
gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio
intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns
velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de
esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso,
íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar
na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem
subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente
detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não,
a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a
Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.



Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos:
os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a
nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar
samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e
aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de
esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem
cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão,
trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede
e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia
isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão
brasileira, tão raiz.



Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil!
Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito
que agente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre
alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a
difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio
intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem
frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que
mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de
esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e
preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).



-- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que
tem?





Blog do autor: http://blogdoantonioprata.blogspot.com/



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