domingo, 9 de novembro de 2008

Memória Celular em transplante de órgãos

Memória celular é a suposição de que células do corpo humano possam conter pistas de nossas personalidades, gostos e histórias independentemente de nosso código genético ou de nossas células cerebrais. E, uma vez que essas células fossem transferidas para outra pessoa, através de transplante de órgãos, essa memória poderia ser incorporada ao receptor resultando em mudanças no seu comportamento.

Essa idéia já objeto inclusive de vários filmes, como o Les Mains d'Orlac de Maurice Renard que aborda a história de um pianist que perdeu as mãos em um acidente e recebeu as mãos de um assassino. A partir daí o músico passa a desenvolver uma tendência a matar.
Na vida real há vários casos que inclusive foram objeto de um documentário do Discovery Channel sobre a chamada “Memória Transplantada”. Abaixo alguns exemplos e opiniões levantadas sobre esse tema tão instigante e polêmico:

Claire Sylvia, uma receptora de transplante de coração e pulmões atribui seu novo gosto por cerveja e nuggets de frango ao fato de que seu doador foi um jovem de 18 anos que morreu num acidente de moto. O rapaz além de beber cerveja tinha uma predileção por nuggets de frango, sendo que quando morreu foram encontrados nuggets em seus bolsos. Ela chegou a escrever um livro chamado (A Change of Heart), em português “A Voz do Coração” que foi transformado em filme para a televisão em 2002 chamado "Heart of a Stranger," com a atriz Jane Seymour.

Em determinado ponto de seu livro, Claire cita James Van Praagh, que teria afirmado: "Doadores de órgãos freqüentemente são pessoas jovens que morreram em acidentes de carros ou motos de forma brusca. Em função disso, seus espíritos sentem que ainda não tinham completado seu tempo na terra e passam a acompanhar essas pessoas co o objetivo de completar as experências no mundo físico. "* James alega que recebeu esta informação do mundo espiritual, o que infelizmente não é possível provar.

Os cientistas Gary Schwartz, PhD, e Linda Russek, PhD, da Universidade do Arizona, (autores do livro “The Living Energy Universe”), propõem a hipótese da memória universal viva na qual “todos os sistemas armazenam energia dinamicamente. . . e esta informação continua como um sistema vivo e envolvente mesmo depois que a estrutura física é desestruturada. " Eles acreditam que isso poderia explicar como a informação e energia do tecido do doador poderia estar presente consciente ou inconscientemente no receptor.

O doutor Paul Pearsall, Ph.D., psicólogo , autor do livro The Pleasure Prescription e The Heart's Code, vai além em suas especulações e afirma que "o coração tem um código de conhecimento que nos conecta a tudo e a todos em torno de nós. Esse conhecimento seria o nosso espírito e alma. O coração é um órgão de comunicação para nossos sentimentos e pensamentos. E alega que células doadas permanecem energeticamente conectadas ao doador”. Para chegar a essa conclusão ele entrevistou aproximadamente 150 transplantados de coração e outros órgãos. Ele acredita que células de tecido vivo tem uma certa capacidade de memória.

Conjuntamente com os pesquisadores Schwartz e Russek, Pearsall conduziu um estudo publicado em 2002 no “Journal of Near-Death Studies”, entitulado, "Changes in Heart Transplant Recipients That Parallel the Personalities of Their Donors." O estudo consistiu de entrevistas com 10 receptores de coração ou coração/pulmão, além de seus familiares ou amigos e os próprios familiares e amigos de seus doadores. Os pesquisadores reportaram paralelos impressionantes em cada um dos casos. Abaixo alguns exemplos:

Num dos casos, um jovem de 18 anos que escrevia poesia, tocava música e compunha canções morreu num acidente de carro. Um ano depois que ele morreu seus pais encontraram algumas de suas composições gravadas e entre estas uma canção entitulada, "Danny, My Heart is Yours," (Danny, meu coração é seu) que falava sobre como ele sentia que “estava predestinado a a morrer e dar seu coração para alguém”. A receptora de seu coração,"Danny", acabou sendo uma jovem de 18 anos chamada Danielle. Quando ela conheceu os pais do doador, eles tocaram algumas de suas músicas e ela apesar de nunca tê-las ouvido antes conseguia completar as frases da letra.
Em outro caso, um garoto de sete meses de idade recebeu o coração de um bebê de 1 ano e quatro meses que tinha morrido afogado. O doador tinha uma forma leve de dano cerebral em seu lado esquerdo. O receptor, que não mostrava nenhum sintoma antes do transplante , desenvolveu a mesma regidez e agitação no lado esquerdo.

Um homem branco de 47 anos recebeu o coração de um jovem negro de 17 anos. O receptor ficou surpreso após a cirurgia com sua nova paixão pela música clássica. O que ele descobriu mais tarde foi surpreendente: Seu doador, que adorava música clássica e tocava violino, tinha morrido num acidente de carro onde o estojo de seu violino foi comprimido contra seu peito.

Uma mulher que era lésbica e consumidora de fast food de 29 anos rcebeu o coração de uma jovem vegetariana de 19 anos que era “louca por homens”. A receptora relatou que após a cirurgia de transplante que carne agora lhe deixa enjoada e ela não tem mais atração por mulheres, pelo contrário, já fala em se casar com um homem.

Outra história impressionante relatada por Pearsall, é a de uma menina de 8 anos de idade que recebeu o coração de uma garota de 8 anos que tinha sido assassinada. Depois do transplante a paciente que recebeu o coração passou a ter terríveis pesadelos de um homem asssassinando sua doadora. Os sonhos eram tão traumáticos que que a família buscou ajuda com um psiquiatra. As imagens que a menina via em seus sonhos eram tão específicas que o psquiatra e a mãe relataram o fato à polícia. De acordo com o psiquiatra, "Usando a descrição da criança, eles encontraram o assassino.

Ele foi facilmente condenado a partir das provas que a paciente forneceu ao descrever seus pesadelos. A hora, a arma, o lugar, as roupas que ele vestia, o que a garota assassinada tinha dito para ele. . . tudo que a criança havia reportado foi comprovado."
Muitos outros estudos tem sido realizados em relação ao fenômeno de coincidências entre doadores e receptores de órgãos.


Pearsall, Schwartz e Russek relatam ainda que "há pesquisas em andamento na universidade do Arizona envolvendo a análise de entrevistas e questionários com mais de 300 pacientes de transplantes para determinar a incidência de tal fenômeno transcendente de memória."

A Dra. Candace Pert, professora do departamento de biofísica na universidade de Georgetown e especialista em “peptídeos” (Os peptídios, peptídeos ou péptidos são biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos atrávés de ligações do tipo amida.) acredita que "a mente não está apenas no cérebro, mas também existe em todo o corpo”.

Ela afirma que "A mente e o corpo comunicam-se entre si através da química dos peptídeos. Eles são encontrados no cérebro assim como no estômago, músculos e em todos maiores órgãos do corpo. Ela crê que a memória pode ser acessada em qualquer lugar da rede de receptores/peptídeos. Por exemplo, a memória associada com a alimentação pode estar associada ao pâncreas ou fígado. E tais associações podem ser transplantadas de uma pessoa para outra”. As provas para essas alegações ainda não existem e suas conclusões ainda não encontram respaldo entre os neurocientistas que estudam a memória. A Dra. Pert também não explica porque nós não parecemos ser afetados pelas memórias dos animais que comemos. Talvez neste caso os peptídeos sejam destruídos ao serem cozidos...
Um outro cientista, o Dr. Andrew Armour, um dos pioneiros em neurocardiologia, (área onde é estudada a comunicação entre o cérebro e o coração através do sistema nervoso) explica que pesquisas recentes tem mostrado que a comunicação entre coração e cérebro é dinâmica, numa espécie de diálogo em que cada órgão continuamente influencia a função do outro. Armour apresentou o conceito de “heart brain” (cérebro cardíaco) no qual o coração teria seu próprio sistema nervoso intrínseco cuja complexidade é tal que poderia ser qualificado como “pequeno cérebro”.
Esse sistema nervoso intrínseco do coração segundo Armour é uma intrincada rede de neurônios, transmissores, proteínas, e células de suporte que o permitiriam agir independente do “cérebro craniano” para aprender, lembrar e mesmo sentir”.

A informação é traduzida através de impulsos neurológicos pelo sistema nervoso do coração e enviado deste para o cérebro através de vários caminhos. Esse impulsos chegariam à medula, no tronco cerebral, onde eles teriam um papel regulador de vários vasos sangüíneos, glândulas e órgãos. Portanto eles alcançariam os mais altos centros do cérebro, onde eles poderiam influenciar a percepção, tomada de decisão e outros processos cognitivos.
Ele descreve em seu livro, “Neurocardiology” , que o sistema nervoso intrínseco do coração, que funcionaria independentemente do cérebro e do sistema nervoso como um todo, é que permitiria um transplante de coração funcionar: sob circunstâncias normais o coração e o cérebro comunicam-se através de fibras nervosas ao longo da coluna cervical. No transplante de coração, entretanto, essas conexões nervosas são seccionadas e não são reconectadas por um extenso período de tempo. Felizmente o coração transplantado é capaz de funcionar no novo corpo usando seu intacto e intrínseco sistema nervoso. Certamente essa capacidade de independência do coração teria parte em reter e acessar memória celular ainda que em outro corpo. Entretanto, a neurocardiologia é uma área relativamente nova, então as teorias como as do Dr. Armour podem ainda não ter o consenso da comunidade científica (ver artigo "Knowing By Heart:Cellular Memory in Heart Transplants de Kate Ruth Linton").

Ter um um órgão transplantado é uma forte experiência de vida , em muitos casos pode ser inclusive comparada com a chamada experiência de quase morte (near-death experience) uma vez que muitos transplantes são realizados apenas quando a morte do paciente é iminente. Não é de se surpreender que muitos receptores de transplantes possam mudar seus hábitos significativamente. Algumas dessas mudanças podem ser facilmente interpretadas como se estivessem relacionadas aos gostos ou comportamento de seus doadores.

Os pacientes de transplantes podem eventualmente querer saber mais informações sobre seus doadores e isso pode fazer com que consciente ou inconscientemente eles sejam influenciados pelas histórias das pessoas que estariam “vivendo dentro deles”.

Reunir histórias para validar uma hipótese pode ser arriscado. Os receptores poderiam estar sendo encorajados a sentirem alguma memória de seus doadores pela próprias pessoas que com eles interagem, podendo inclusive ser as próprias famílias de seus doadores, ou mesmo de algum profissional da área de saúde que lhe atende. E esse comportamento podem ainda estar sendo influenciado pelos livros e programas de TV (como o já citado do Discovery) que tem sido apresentados.

A ciência tem ainda um campo extenso para avançar em termos de pesquisas relacionadas a chamada memória celular e as suposições de alguns pesquisadores que incluem o misticismo ou pensamento mágico em suas conclusões podem ser muito atrativas a pessoas que estejam predispostas a esse tipo de crença.
Mas conclusões sem uma base científica consistente são demasiado perigosas e nos remetem a antiguidade quando a humanidade era refém dos poderes mágicos.

Neste contexto, o cientista Jeff Punch, M.D., afirma que “existem várias explicações lógicas possíveis para explicar porque as pessoas podem assumir características de seus doadores: Efeitos colaterais de medicamentos de transplantados pode fazer com as pessoas sintam-se estranhas e diferentes do que eram antes dos sintomas. Por exemplo, a prednisone faz com as pessoas sintam-se famintas. O receptor de um órgão desenvolve o gosto por doces que depois descobre que seu doador também tinha. Ele pensa que há uma conexão mas pode ser apenas conseqüência da medicação que o faz desejar doces.

O transplante é uma profunda experiência e a mente humana é muito sugestionável. Sob o ponto de vista medico parece ainda não haver nenhuma prova que estes relatos sejam indicativos de memória celular.
Mas as histórias intrigantes envolvendo doadores e receptores de órgãos podem levar a investigações científicas sérias e imparciais no futuro colocando luz em todas essas questões.

Referências:
Cellular Memory in Organ Transplants - Leslie A. Takeuchi, BA, PTA
Cellular memory

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